domingo, 6 de março de 2016

(sem título)


postas de vida à beira-eu
pássaros que se agitam nos céus
e o mar longínquo que aguarda

luz perfeita
céu perfeito
e eu imperfeita e só
a um canto da alma

os búzios partidos assomam-se na mesa
a carne das folhas abana nas árvores

os dedos pousam no estofo florido da cadeira
quero sair daqui
(e quero ficar, nunca sair, morrer)

patas de pulga secam no chão
o barulho dos pássaros sobrepõe-se ao dos motores

não sei o que escrever
não sei o que fazer ao corpo
não sei parar os pensamentos pegajosos
não sei curar as emoções que perdi cá dentro
não sei alcançar o pedestal divino que abandonei
(abandonei o meu culto divino!)
e jazo mortal desesperada de caneta em punho
bato na mesa como se esmigalhasse insectos
quero ir e quero ficar

a isabel que afronta a vida
tem marcas do passado escritas nas costas
os olhos não as vêem
– só de espelho em riste
pomadas para os olhos não as alcançarão
medo da vida
viver a vida
costas ao anoitecer apodrecem os olhos que não vêem
não precisa deles a isabel que não vê

descobre os olhos e as mãos da alma
na casa abandonada na infância
pratica no tapete
esquece o estômago enfartado
vive os dedos no tapete
sente o ar à luz do sol
inala sol
exala ruído
morre para fora
vive para dentro
morre na contemplação das aves
come-lhes as cabeças estaladiças
rasga a boca com os bicos das aves
estala no chão o erro dos mamíferos
caninos errados e aguçados

as aves no céu
eu na casa

Começo.


domingo, 28 de fevereiro de 2016

(sem título)


vejo pés pálidos no chão
são esguios como o meu corpo de caule abandonado
tocam o chão que é frio e seco

os olhos vomitam podridão
a cabeça explode o mundo
a cara bonita transforma-se no monstro pesado
incha com o pó

a menina bonita deixa-se apodrecer no pó do mundo
o pescoço não tem força
a cabeça pende no monte de lençóis brancos
o candeeiro pende também na forca do tecto

os olhos desaparecem no pó
o corpo abandona-se no monte de roupa suja no corredor
as unhas crescem no chão

a menina evapora-se


domingo, 7 de fevereiro de 2016

(sem título)


haverá algo totalmente branco que seja da terra?
o gelo pertence à água
algumas pedras?
algumas pétalas?
a boca sabe-me a sangue
os líquidos da concepção?
branco-escuridão-vermelho
talvez as entranhas sejam brancas sem sabermos
talvez o centro da terra não seja incalculavelmente quente
e sim ameno
uma esfera de equilíbrio branco


domingo, 7 de dezembro de 2014

(sem título)


porque a respiração das coisas é subtil e invisível
e o choro da vida tem uma pulsação própria
embora não haja crianças a brincar lá fora
a água continua a espalhar-se
a vida tem um motor próprio
se quiseres estar de joelhos ela não quer saber


domingo, 30 de novembro de 2014

crostas e visões


crostas e visões de cio selvagem
cartas distantes pousadas na água
barris de sangue com almofadas rosa
e túneis de rubis lapidados

sonhos de cetim e pele rasgada
olhos cinzentos esperam a chegada
casas largas em ruas estreitas
e seis estrelas no topo dos telhados

cospem-se ideias em vasos de barro
em sacos de ardósia vêm-se os santos
sopa de penas servida às mesas
e vómito laranja nas esquinas asseadas

a roupa que temos dos outros
a caspa que temos dos pássaros
silêncio em zero graus
ânsia às três horas


domingo, 23 de novembro de 2014

Pelo corpo é que vamos.


quanto mais ao corpo
mais o mundo se escancara
mais a anima se solta
mais se instala o contentamento

o que interessa é isto:
a expressão que acompanha o abrir do corpo
o abrir do centro
é o acesso ao centro que importa

(tive sonhos, esta noite
várias coisas
entre elas, cães)

Pelo corpo é que vamos.

e o corpo era quente e recebia
e o chão já não era desconhecido
as garras do coração afagavam as criaturas
e os olhos enegrecidos viam luz nas entranhas do mundo
eram os pés e os braços que faziam magia
e quebravam os feitiços das velhas
era o torso gélido que começava a viver
era a respiração que já não era um obstáculo
e os sentidos iam a galope pelas estepes

porque o coração está quente e quer escancarar-se
num acto de adoração
porque é o corpo que se move agora
porque os olhos já não lêem e o cérebro descansa
porque é o corpo que se move e se alimenta no prazer do movimento
porque o corpo dança descalço na madeira e à volta do metal
porque não há como voltar atrás
– pelo corpo é que vamos

Pelo corpo é que vou.

porque no corpo há passagens secretas para a alma
no corpo há passagens secretas para aquilo que se esconde atrás do coração
é lá que habitamos
é lá que somos antigos e descansamos
é lá que nos movemos e criamos
é lá que oramos
é lá que nos veneramos
é lá que vemos
é lá que a vida começa
é lá que há a cascata abrupta de vida
é lá que é possível a alquimia
é lá que se atravessa a água e que as coisas se movem
é lá que o poço está sempre cheio
é lá que bebemos
é lá que nos saciamos
é lá que nascem as asas
é para lá que vão as fénix antes de regressarem
– é lá que nos encontramos

E isto é sagrado.

e manhã talvez precise de começar de novo
de joelhos
sem nada

mas é isto:
é começar sempre
e regressar sempre ao centro
soltar o corpo até não poder mais
soltar tudo o que prende
soltar tudo o que agarra e impede
beber o prazer do corpo
(e quanto ele agradece!)
e enviar-lho de volta
toma, é tudo para ti!

Pelo corpo é que vamos.


domingo, 16 de novembro de 2014

(sem título)


na verdade apenas temos uma asa
somos mais parecidos com um ovo estrelado
do que com um pássaro



domingo, 9 de novembro de 2014

(sem título)


nascem-me miosótis no centro do peito
e tenho de protegê-los muito bem
porque os anteriores apodreceram
com a última água que me inundou



domingo, 2 de novembro de 2014

(sem título)


os pássaros estavam presos nos seus pequenos corpos de penas
os pássaros eram fumo colorido
os pássaros viviam nos corpos dispertos
os pássaros na verdade não voam – são transportados
os pássaros não são aquilo que vemos
os pássaros são mais parecidos com as árvores do que com um par de asas



domingo, 26 de outubro de 2014

(sem título)


o pai tinha uns olhos que queimavam e que sofriam o desencanto das horas no relógio da vida
e as unhas do pai eram normais
os pêlos do corpo transbordavam das camisas e o pai era careca
o pai metia dó
o pai não sabia viver
ao pai ninguém disse que ele podia ser diferente e mais cheio de vida
ao pai ninguém mostrou como sujar os dedos nas tintas e como andar descalço na relva
e o pai foi fechando
coitado do pai
tem perdão o pai?
tem, sim
há perdão para o pai que não tem culpa de não ter sido amado, que não tem culpa de não lhe terem ensinado o arco-íris
coitado do pai
o menino que foi ainda chora atado aos ferros da cama velha
ainda sente a cara dorida das mãos pesadas da mãe
ainda tem medo
coitado do pai
há perdão para ele?
há, sim
porque o meu coração é leve e quente e suaviza com a luz
e vai abrindo
e talvez o coração do pai
também vá abrindo aos poucos
porque o pai ainda tem tempo, se quiser
porque o pai ainda vive
porque o pai ainda tem aquela chama nos olhos bem lá no fundo e o pai tem a força do movimento
porque o pai é firme e estável
porque o pai também é deus


domingo, 27 de abril de 2014

(sem título)


   encara um estranho
 permite-te ser ridícula
   (sê, então, ridícula)
e vê o milagre acontecer


domingo, 20 de abril de 2014

(sem título)


papá, acolhe-me na tua perna
e guarda-me até eu ser forte
protege-me bem até eu ser grande
e não me deixes ir até estar completa

porque a vida é um torno
que não para de girar
e as mãos que moldam magoam
até estarmos prontos

proteges-me, papá?
prometes?


domingo, 13 de abril de 2014

(sem título)


o que é isto que se esconde e que quer sair?
o que é isto dentro do peito?

quebro o esterno com o escopro
que deixaste caído na escada
e nada encontro

o peito aberto sangra
e tudo continua à espera
escondido em alguma célula oculta


domingo, 6 de abril de 2014

(sem título)


o cão não estava atento
quando a planta surgiu na terra fofa
e as pegadas de sol começaram a aparecer nas coisas

por detrás da fome da luz
por entre os juncos verdes da lagoa
o horror da planta formava-se a pouco e pouco

o existir no mundo fora da mãe
o despontar da vida para a visão a captar e cobiçar
a sedução da cor para a mão que arranca e corta se mover

porque a planta era bela e luminosa
e o seu destino era a ferida


domingo, 30 de março de 2014

(sem título)


seiscentos veículos de rodas vibrantes alinhados ao sol posto
quatrocentas engrenagens nas prateleiras do armazém
vinte e uma rodas nas paredes silenciosas
quatro postais rasgados no chão da casa

herbívoros silenciosos pendurados no tecto
a telepatia das coisas afecta-os nas patas
o sangue é violeta na incerteza dos dias

o pasto é metalizado e insensível
seca na boca e rasga os estômagos
implode nos olhos a crueza dos dias
dilui os cascos que pingam o chão
acidifica a medula presa no corpo

o pasto é imediato e venenoso
pulsa nele o pesadelo dos ruminantes


domingo, 23 de março de 2014

(sem título)


e é quando dói mais
que deves abrir o peito
e dizer sim à vida
e é quando tens mais medo
que deves ir e fazer
e dizer sim a ti
viver a partir do coração
sempre partindo do coração
viver a partir do centro
viver a partir do desejo
conquistar o espaço
ser digna dele
ser digna da respiração
e do coração que bate no peito
ser digna da voz
e da visão
ser digna do tacto

se não usarmos o amor
ele perde-se
se não usarmos o corpo
ele deixa de existir
porque o vinho que bebemos é doce
e azeda se não soubermos viver


domingo, 16 de março de 2014

(sem título)


e porque as aves não voam
sem exporem o peito ao mundo
a mulher-ave abre as asas
na água do amor
e expõe o peito frágil
e entrega as mãos ao vento
e o corpo desliza pelas coisas
como uma serpente

há mulheres que vivem como pássaros
de asas abertas
e peito vulnerável
desafiando a vida

porque no centro do seu peito
há serpentes ocultas que fitam


domingo, 9 de março de 2014

(sem título)


os pássaros cambaleiam nos telhados
arrastam as asas quebradas que lhes magoámos em louvor

acendemos as candeias da agonia
com o sacrifício de todas aves
nada se ergue no céu agora
reunimos tudo cá em baixo
e as últimas que ainda habitam os telhados
hão-de despenhar-se aqui
na última tentativa de voo
e arrancar-lhes-emos as patas

a chama dos seus olhinhos de ave
extinguir-se-á muito depois

alimentar-nos-emos dos seus guinchos histéricos
celebraremos a sua angústia
pois parecerá maior que a nossa

santificá-las-emos

durante esses dias, a vida será fácil
mas quando a última ave tombar
estaremos vazios novamente

e então talvez nos lembremos
dos que habitam os oceanos, os mares, os rios e as lagoas
e talvez engendremos uma forma
de secar todas as águas

como é belo um holocausto!
quantos anos de planeamento!
quanta distracção maravilhosa!

mas então deixaremos de ter o que planear
pois os animais do chão foram mortos há muito

e como é tão difícil olharmos os nossos próprios olhos
restar-nos-á caçarmo-nos e comermo-nos uns aos outros
por não termos mais com que nos distraírmos

– e o último paraíso ficará por construir


domingo, 2 de março de 2014

(sem título)


a ave inclina-se ao sol no topo do telhado
caminha no último raio de sol que se afasta
amorosa na sua silhueta de ave
nos seus passinhos de ave

as aves caminham apenas
já não se ouvem em algazarra

e é a luz desta hora que me enternece o coração
ou algo por detrás e à volta do coração
e quero fazer uma carícia de sol na tua face
quando não estás aqui


domingo, 23 de fevereiro de 2014

(sem título)


quando há a voz que cala
o sangue pára a construção
a língua recua no trabalho
os ossos diluem-se cá dentro
os músculos soltam-se de nós

quando a voz fala de novo
é apenas para dizer adeus
é apenas para se calar de vez


domingo, 9 de fevereiro de 2014

domingo, 2 de fevereiro de 2014

(sem título)


a carne dos pêssegos
a enterrar-se nos dentes

a brisa de setembro
a inundar-me a boca

os dedos pegajosos
as mãos a pingar

o chão inundado

o sorriso do corpo



domingo, 19 de janeiro de 2014

Sistemas de merda


Sistemas estruturantes da racionalidade
são a engenharia radiosa do teu ser
que se afunda e emerge na bidimensionalidade
de fatal e exuberante ângulo de não-viver

Revestido a vidro sem preocupação amontoado
esse edifício sem arquitecto competente cede
poeticamente pouco a pouco humanizado
e essa fachada de mármore já nada impede

Orientado para a solidão o teu funcionalismo
relega-te para o cartesiano solipsismo
onde vives auto-suficiente sem aparente coração

Mas as bases que te sustentam são frágeis
e apesar dos teus esforços sobre-humanos e ágeis
nada permanecerá de pé – esses Sistemas ruirão


domingo, 22 de dezembro de 2013

(sem título)


dá-me os teus olhos para que possa
ver o mundo como tu
dá-me o teu corpo para que possa
sentir a chuva como tu
dá-me a tua mente para que possa
penetrar-te em mim


domingo, 1 de dezembro de 2013

corcéis


vestíamo-nos de bronze
e de ambrósia
e bebíamos palavras ao acordar
destruíamos os mundos em folhas de papel
e criávamos sóis de metal
nada existia que fosse azul
(o céu não era azul)
e os pássaros voavam contra o vento

havia sacrifícios e artifícios
e o caos em ordenação
vivíamos dentro das árvores
e éramos simples como elas

tu montavas a cavalo
indomado pelos deuses
e o teu coração era âmbar
que aprisionava os ventos

quando chegavas
cheio de mares errantes nas mãos
tinhas palavras nos dedos
e vestias-te de sonhos camuflados na imensidão
nos dedos tinhas a música
nos olhos a vida que passou
e o sangue dos antepassados
eras o cosmos em desalinho prateado
eras a minha rendição


domingo, 24 de novembro de 2013

(sem título)


e se as coisas implodissem no céu?
e se os monstros fossem meninas assustadas nos berços?
e se o homem-máquina arrancasse as próprias engrenagens e sangrasse o seu óleo?
e se a vida se exprimisse no maquinismo dos eléctricos?
nos carris metálicos que não terminam?
e se a palavra fosse apenas a paragem em Belém e não a vida?
o que importa é o sol a bater no metal
o caminho percorrido vezes e vezes sem conta
a saída dos passageiros e o regresso a casa para a passagem da noite
há um percurso secreto que só o homem-eléctrico conhece
só ele o percorre
só ele cumpre essa função
e se apenas ele soubesse o segredo das coisas?
e se apenas o seu trabalho fosse fundamental à passagem da vida?
e se deus vivesse nos seus carris que ninguém vê?
e se deus zelasse pelos seus passageiros invisíveis?
e se o seu triunfo fosse esse?
enlouquecer
criar um coração de metal
percorrer o caminho das máquinas
sentir como elas
dormir quando elas dormem
amá-las
e morrer


domingo, 17 de novembro de 2013

(sem título)


E se as penas das tuas asas se quebrassem? E se, quebradas no chão em pedaços, fossem sopradas para cantos distantes pelo vento do Norte? E se, dispersas, chamassem por ti? Pedirias ao vento do Norte que te levasse até elas? E recolhê-las-ias? Juntá-las-ias?

          Para quê?


domingo, 10 de novembro de 2013

revelação I


(porque esta é a visão que crês oculta…)

      ela é o centro à volta do qual tudo gira
      toda a casa gira à volta dela
      converge para ela
      as crianças
      os animais
      as plantas
      eu
      tudo gira em torno dela
      bebe dela
      precisa dela
      ela é a verdade e a vida



domingo, 3 de novembro de 2013

(sem título)


há uma borboleta de asas rasgadas
caída no degrau

sempre soubeste apanhar as mais belas borboletas
para as mutilares



domingo, 27 de outubro de 2013

abismo


soltam-se os cabos em riste
                   o caos em riste
pousas as mãos na terra
          a cabeça na terra
o abismo olha
tu não vês
cerras o som
mastigas visões
castigas as rochas
corporizam-se os gritos


domingo, 20 de outubro de 2013

(sem título)


já nem o desassossego aqui vive
como com os fantasmas numa casa vazia
os pés desfazem-se no chão
há pó e nada
há silêncio e lume apagado
tudo é quieto e veloz
os livros empilhados não querem ser lidos
os pensamentos não querem ser pensados
há um sossego violeta nas coisas
sinto os dedos nas horas
as unhas mostram-se e bebem som
a pele descola-se com os aviões que passam
chove nos carros mas aqui tudo é seco
é a terra vazia que veio e que ficou

faltam as cores da vida nos outeiros à beira-estrada
falta o sol a brilhar por detrás das folhas
falto eu à vida
falto eu na casa
falto eu no chão e no lume e nos livros
falto eu nas horas e na chuva e nos outeiros
falto eu na estrada e no sol e por detrás das folhas
falto eu nas coisas


domingo, 13 de outubro de 2013

(sem título)


Sabes a que soa a madeira a estalar? A que soam as raízes fundas e fortes ao serem arrancadas pelos dentes metálicos das máquinas?
É um som que crepita e que rasga. É um som que fende o chão.
É esse o som dos nossos passos neste mundo.



domingo, 29 de setembro de 2013

domingo, 15 de setembro de 2013

(sem título)


O tecto da casa ruiu. Vêem-se tábuas e teias de aranha.
Despreocupadamente, a rãzinha pula no charco. Engole um moscardo.
A vida segue sem interrupção.


domingo, 18 de agosto de 2013

domingo, 11 de agosto de 2013

(sem título)


Vomito sopa nos cantos e tu comes pernas de frango no meio da rua.
Temos alma?
Somos obstáculos à pureza, de olhos esgazeados.


domingo, 4 de agosto de 2013

domingo, 28 de julho de 2013

domingo, 21 de julho de 2013

(sem título)


porque se chegasses agora
ancorarias no meu porto
e o chão fender-se-ia
em adoração
a cada passo teu


domingo, 14 de julho de 2013

(sem título)


raspa toda a alma, rasga-a
sangra-a e exibe-a como troféu
             - vejam o que alcancei:
             o buraco supremo que brilha nos pulsos
             o dejecto aceso da ignorância suprema



domingo, 7 de julho de 2013

(sem título)


talvez o sol viesse saudar-nos naquele tempo
talvez as mãos fossem a sede e a água
e a armadura de cal não nos pesasse tanto

talvez não tivéssemos medo
talvez existíssemos no chão
e o pão matasse mesmo a fome

talvez nessa altura o silêncio não nos ferisse
talvez o som se propagasse nos corpos
e a tua face contra o meu útero fosse a última memória


domingo, 30 de junho de 2013

(sem título)


a tua boquinha amorosa
mostra-me um animalzinho
de trazer por casa
uma mascote que dorme
num cestinho

mas quando o sol se põe
vejo na tua boca a luxúria
de tempos antigos
as sombras vermelhas e metálicas
do desejo de consumo feroz

e passas de coisinha fofa
a artífice do prazer
de cãozinho tonto
a senhor do feudo


domingo, 23 de junho de 2013

(sem título)


a água que cai fura-nos o corpo
rasga-nos a pele
chaga-nos os ossos
e nós colamos tudo
cosemos tudo
compomos tudo
e aparecemos na vida uma vez mais
um dia mais



domingo, 16 de junho de 2013

(sem título)


as aves aparecem no dia
aparecem-me em bandos
permanecem em isolamento
esfumam-se em desafio
pairam de peito vivo
voam a velocidade
e o coração pára
simplesmente pára
e elas param e caem
tombam no chão
e ficam
asas e bico
patas e olhos
e peito



domingo, 9 de junho de 2013

(sem título)


tudo é mais perfeito onde existe um pássaro
mais próximo de deus

os silêncios das horas
rendem-se-lhe na sua solidão

todas as aves estão sós
todas as aves voam porque estão sós

um par de asas abertas e olhos de réptil

ninguém as quer
e elas desafiam o mundo na sua solidão



domingo, 2 de junho de 2013

(sem título)


no absurdo das coisas
no limite
no fundo do horror
esconde-se o hilariante
o cómico

ultrapassa as coisas e ei-la
                        – a loucura
aceita a loucura e ei-la
              – a iluminação



domingo, 26 de maio de 2013

sê bem-vindo


o amor soltou-se na baba dos dias lentos
moveu-se em arcos de estanho pelos corpos secos
sintetizou-se na marca ancestral de todas as coisas mortas
esfarelou-se nas penas do pequeno pássaro morto
e então comi o passarinho rígido e mal-cheiroso
alimentei-me dele
a sua penugem infantil alojou-se-me no coração
e criou uma redoma de fragilidade e lixo
de abandono e destruição
é aí que habito
é aí que te recebo
– sê bem-vindo



domingo, 19 de maio de 2013

(sem título)


e então a vida parte-te os ossos
consome-te o sangue
e ficas parado e seco
a lamber o asfalto


domingo, 12 de maio de 2013

a menina uivando


a menina bonita caminha pela rua
vazia até à medula
a carinha de rebuçado não prende ninguém
é lixo por dentro
é lixo por fora
os nós dos dedos contam histórias de solidão
a menina linda caminha na rua
(menos suja do que ela)
fere-se quando olham para ela
cria vinganças para quem ousa contemplá-la
a menina amorosa não sabe viver
quer que a cultuem num altar-mor
quer que a não vejam quando passa
etérea e insegura
os passinhos inseguros da menina mais linda de todas
deixariam marcas de pétalas na areia
mas a menina vai pela calçada
os seus passos perdem-se no lixo de fora
os seus passos perdem-se no lixo de dentro

tenho pena da menina mais bonita de todas
a beleza sumir-se-á nos anos
e as solas com florzinhas gastar-se-ão
a menina será um cadáver vivo
uivando às memórias
uivando ao mundo injusto
reclamando a carinha perfeita
e a parecença com uma princesa das histórias infantis
mas a menina estará velha e gasta
lamentará à lua e aos gatos
tudo o que não viveu
tudo o que desperdiçou
a menina será sempre infeliz e vazia



domingo, 5 de maio de 2013

(sem título)


o lençol frio reclama por nós
as mantas fofas e as almofadas também
mas o nós não existe
existo apenas eu
e os gatos


domingo, 28 de abril de 2013

o cão na sala


no fogo das coisas
no centro da madeira
no vómito dos dias
tu e as setas
tu e as bombas
tu e a crueza do sangue
e eu na sala
perdida no cão
ignorando o horror
– é em ti que as guerras começam



domingo, 21 de abril de 2013

(sem título)


a areia era translúcida no espelho da água
a pedra de xisto estava parada no chão
o pássaro branco voou da água e para a água
o pássaro castanho abriu as asas em louvor

no negro dos dias
na cinza das horas
os pássaros acendem-se nas planícies
e marcam o sacrifício

ouvem-se as ondas lá em baixo
ouvem-se as ondas cá em cima
no meio o silêncio da rocha



domingo, 14 de abril de 2013

(sem título)


quando te negas
há apenas escuridão
o teu corpo parado
inerte no chão
a casa escura e fechada

abre uma janela
abre apenas uma
faz esse pequeno esforço
e logo uma compulsão
de iluminar toda a casa te possuirá
é deus de rajada em ti
faminto de luz



domingo, 7 de abril de 2013

deificação


nasceste da terra ensanguentada
onde os sons se formam
enterrados e meios absorvidos
fermentam
propagam-se
em sílabas

transmites as palavras esquecidas


a música sai dos teus dedos
a criança à tua frente
em rituais desconhecidos
oferendas
sacrifícios
em gestos

dá-se a pureza das coisas


domingo, 31 de março de 2013

apostasia


murmúrios de longínquos horizontes
descem as fragas perigosas
soltam-se em pedaços
esfolam os que crêem

chamam-lhes Os Deserdados
Os Filhos da Renúncia
Os Condenados

conjuros de apóstatas
que ferem

domingo, 24 de março de 2013

cães


havia cães ao luar
oravas ao sem-nome com mãos agrestes

saberíamos deuses ardendo?

prostraste-te em cinzas e vácuo no arrozal
tinhas as garças e os girinos na linfa
sumias o vento e a cor no silêncio
e os ossos fundos dos mortos diziam adeus

Sibylla na neve e tu no arrozal
as damas vorazes de homens capazes
sexo com fartura e volúpia em rasgo
sacos e cestos de água sem semente viva
pobres os sons
vastos os céus de dedadas
criados os ventos
nexo de nada

ajoelhavam-se os monges ao cair da noite
bíblias rasgadas tombadas nos degraus
varandins impuros presos a nós
e condutas de outros lugares

onda-tabu de vestes rasgadas alucinantes
lençóis deixados a apodrecer nos tanques

ervas selvagens corriam nas nuvens
ópio lilás escorrendo dos sóis
brotavam silvos agrestes das terras
criavam a ambiência dos infernos celestes

raparigas orientais presas às árvores
caíam com as folhas
enfeitam o chão

os cães abandonam as estepes
presos aos dedos de quem escreve

uivam os cães na madrugada
curvam-se as aves a quem se vem
libertas as ânsias nos ramos das árvores

venham os poetas os ciganos as prostitutas os moribundos e os doentes
venham no choro convulsivo de quem não tem outrem
venham pedindo a Afrodite uma bênção de bálsamo nu

            recebam a fortaleza do toque alheio nos seus sítios secretos


domingo, 17 de março de 2013

altar


os teus tumores vertebrais escorrem nas minhas mãos rasgadas
são odores que atravessam paredes e sons que bóiam nos bidés
pedaços de carne que furam
rompem furiosamente o chão
estilhaçam os alicerces do teu corpo e dos meus olhos

raspo com facas os teus tumores cervicais
ouvem-se ossos no metal
soam a opacidade
são estalos ocos e secos de languidez
destilo-os com ervas secas e bebo-os às refeições
ergo-lhes altares e pus


domingo, 10 de março de 2013

(sem título)


és um cão perfeito
és sim
com tanto amor na barriguinha
é difícil seres infeliz
e quando és feliz
és perfeito



domingo, 3 de março de 2013

(sem título)


encontra os teus demónios
             doma-os
      e exibe-os na feira
       a m e s t r a d o s



domingo, 24 de fevereiro de 2013

líquido


recusas-te à vida
à água de deus
não deixas que ele se venha
no teu caminho
negas-te ao poder
não te espojas
no deus derramado
os cães fazem-no
e são felizes
dá-te ao deus
roça-te nele
e em êxtase
consome a vida



domingo, 17 de fevereiro de 2013

(sem título)


faço vinho do que sentes
arranco-o aos pedaços
piso-o com os pés descalços no chão de madeira
sorvo o néctar que escorre antes de dormir
e é assim que a beleza me chega todas as manhãs



domingo, 10 de fevereiro de 2013

revelação II


(porque esta é a visão que crês oculta…)

         os anos passam e penso
         poderá ser sempre assim?
         poderemos nós continuar a desafiar o erro do mundo?
         poderemos ser no mundo o que até agora nos outros não passou de vontade de desejo de quimera?
         poderá o universo ser por nós e não quieto ou contra nós?
         poderemos ser a concretização das coisas belas?
         poderá a mão de deus tocar-nos a cada dia para nos guiar um para o outro sempre assim?
         poderemos nós ser a vida em bruto e na sua mais verdadeira expressão?
         olho para ela e vejo a vida a luz e a beleza
         deus está nela e ela vê-o em cada coisa
         solta-o em cada gesto

         funde-o em cada sorriso
         e eu?
         bem, parece-me que começo a vê-lo também
         a escapar-se por entre os sons e os silêncios
         a proferir em surdina na casa

             vida   amor   totalidade



domingo, 3 de fevereiro de 2013

(sem título)


mastigo os ossos secos que encontro nos caminhos
         sabem a bolos doces saídos do forno

a vida sabe melhor quando a digerimos na totalidade



domingo, 27 de janeiro de 2013

(sem título)


o coração está seco

           encarquilhou-se no pavimento da tua palavra
           tombou no capitel esculpido da tua ciência


domingo, 20 de janeiro de 2013

(sem título)


os coalas rangem os dentes
preparam-nos emboscadas
tão perfeitinhos
na sua fofura de coala

caem das árvores
comem as aves
pisam as folhas
e babam-se em cima de nós

arranham-nos a barriga
com as garrazinhas afiadas
e fitam-nos expectantes
com os seus olhinhos de marsupial
             – queres ser o meu jantar?



domingo, 13 de janeiro de 2013

(sem título)


as portas dos templos abrem-se quando passo
e pedem-me que os santifique
rugem incompreensão e ordem
caos e horror

e eu recuso-me aos homens
e solto-me descalça pelos outeiros
sigo as linhas que vêm de norte
olho para sul na visão das aves
cinzelo-me na contemplação das coisas

absorvo os altares nas árvores
            os retábulos nas ervas
            a hóstia nas rochas
            o vinho na água



domingo, 6 de janeiro de 2013

ofício


quanto custa o medo nas tuas ancas o fogo
o calor dos astros caídos na serpente vazia
e casta o absoluto comer inalar os fogos
de luar no nevoeiro azul comer o pássaro
que voa como quem chora de afeição mundana
na cal do rosto na cal dos dias e o açafrão
espalhado na bancada e aspergido para a rua

                             – baptizo-vos com açafrão


domingo, 30 de dezembro de 2012

domingo, 23 de dezembro de 2012

bosque


íamos na serra e pisávamos as ervas
as nuvens corriam com as horas e nós contornávamos as pedras
silenciosas as flores, as árvores orando aos céus
bebíamos do rio e guardávamos folhas nos bolsos lavados

os nossos dedos tocavam o rosto das plantas e o das rochas
arrastávamos connosco o caminho que atravessávamos
saboreávamos as bagas adocicadas que se nos ofereciam à passagem
o nosso sangue percorria-nos inebriado de bosque

era a seiva das árvores
era a água do rio
era o perfume das flores
era a natureza em desafio
éramos nós


domingo, 16 de dezembro de 2012

pus


vermelho no céu vermelho no coração
subimos escadas descemos memórias
cortamos pão criamos vazio
escaqueiramos conchas



domingo, 9 de dezembro de 2012

bebo-te


águas que te trouxeram
mãos que seguraram os enganos
       sinto-te

chama em tropel no corpo
avidez em aflições
       nasceste

bebo o teu sangue
corres-me pelas veias
       diluis-te

no chão o teu corpo exangue
preso em amargas ameias
       viveste


domingo, 2 de dezembro de 2012

o mar e as coisas nos ossos


um amor imenso pelo mar
pelas dunas e pelo céu

a água no peito
as plantas nas mãos

o cheiro

o sal no rosto
e nos dedos que se levam à boca


domingo, 25 de novembro de 2012

água


Lisboa é um bicho que morreu
cheira mal e espuma líquidos escuros
infecta-me a roupa com podridão

Lisboa é um bicho de boca aberta
é a senhora de unhas negras
que apodrece nas esquinas

arranho-me nela
pingo sangue nas estradas e nos passeios
fujo sem lhe escapar

a água já não existe
Lisboa secou à beira-rio



domingo, 18 de novembro de 2012

nós


dizes que me amas e pensas em refinarias de petróleo
o meu coração é a mulher prostrada, de cabelos escorridos e rosto desfeito
o teu é betão maciço com design funcional

sorris, chamando-me ‘bonita’ e sonhas com paredes de linhas simétricas feitas de metal
na garganta tenho a devastação de cítaras quebradas
tu tens evasões que se esbatem em códigos de vidro

tocas as minhas mãos e desejas motores de barcos sujos encalhados em lodo compulsivo
a minha pele é feita de rocha e água apodrecida
a tua é artífice em fogo dos padrões simétricos da negação

olhamo-nos nos olhos e ambos temos fábricas em desfiladeiros no cérebro
os meus símbolos decifram saberes de terra e de prata
os teus fragmentam os vales da estética assimétrica das estações

temos os pés dentro de água e sentimos cardumes nos dedos
eu perco as memórias antigas dos sacrifícios nas absides angulosas dos escombros
tu queima-las em fornos suados de recintos sinuosos

o vento bate-nos na cara e absorvemos descontinuidades na língua
eu saboreio minerais de transumância na idade do medo
tu degustas o teu mar de ninguém de orgânica equilibrada

há a nossa dinâmica das coisas decifrada no teu equilíbrio funcional
a escala é a tua

vertes os meus deuses no álcool e guarda-los em frascos fechados
alinhados
teces a malha da estética dócil onde me amarras

tenho recordações de nada
lembranças de vazio

      vivemos na casa grande da Rua de Ninguém


domingo, 11 de novembro de 2012

(sem título)


há uma curva no cimento da gaiola
laços de cinza nas nuvens que se apertam
movimentos em espiral na onda do teu corpo
sinais que se esperam ao cair da noite
ódios violentos no umbigo apagado
seios que apodrecem o coração dos dias
incertas horas de seixos enlameados
e seis vagas noções de cálices em pé

falham as casas e as pontes no abismo
volatilizam-se os ossos do sangue escorrido
e os olhos pesam no pescoço amedrontado

oiço passos à distância no corredor da casa velha
vejo sombras de satélites perdidos que vagueiam

como sozinha à mesa em cima dos livros queimados
passo por louca e estranha


domingo, 4 de novembro de 2012

(sem título)


religião de ti fogo de tudo
consumação do mundo braços de névoa
respirações em tempestade corpo de rocha
sabedoria nas mãos dedos acordados
torpor nos lábios pele de seiva
olhos púrpura tecidos rasgados


domingo, 28 de outubro de 2012

cornos lunares


cornos lunares no crepúsculo dos sofás
setas partidas presas nos xailes de inverno
sapatos de verão calçados e gelam os pés
tinta gasta em papel amarelado

cadeiras de cornos lavradas por setas
xailes rasgados e manchados de tinta
saltos que se partiram com o gelo
e os sofás gastos brilham ao cair da noite

soltas as coisas mas presas por fios
dormem nos bancos piolhentos de jardim
esperam esmolas pela manhã
e comida esgravatada nos lixos
esperam as garrafas de vinho dos indigentes
bálsamo de encantamento e de calor

invernos e mobílias estragadas com o frio
jardins suspensos na intermitência das estações

hordas de mobília avançam ao entardecer
as hostes dos tecidos que visto preparam as armas
o que cobre os pés organiza-se em legiões
apresento-me nua e sem suporte na batalha


domingo, 21 de outubro de 2012

romãs


escrevo poesia de cócoras
e tu provas os pianos com a língua
        são audácias votivas que temos em nós

colho romãs em cálices urbanos
e tu espremes gotas de caramelo dos nenúfares
        são rituais que se prendem ao céu-da-boca

colecciono cavalos-marinhos dentro das unhas
e tu comes cerejas volatilizadas com sal
        são gestos que nascem do chão
      
sentimos o desencadear das formas banais
vivemos as teofanias dos ouriços-cacheiros
substituímos deus dentro das cerejas
    o nosso casulo é a nova Bethel


domingo, 14 de outubro de 2012

(sem título)


lavo no tanque com as velhas

o meu corpo é jovem
os pulsos magros e desconexos

esfrego na pedra a solidão das horas
o sabão traz-nos a alquimia das coisas


domingo, 7 de outubro de 2012

domingo, 30 de setembro de 2012

sal


há asas nas redes dos teus olhos
fósseis nas malhas colossais do teu abraço
sentam-se os deuses no abismo
e lambem o sal da tua pele

o sol vívido nos pulsos
mãos que se acabam no rosto
(conchas que se amontoam no chão)

há fome de mar na ponta dos dedos
labaredas acesas no fundo dos abismos