domingo, 23 de novembro de 2014

Pelo corpo é que vamos.


quanto mais ao corpo
mais o mundo se escancara
mais a anima se solta
mais se instala o contentamento

o que interessa é isto:
a expressão que acompanha o abrir do corpo
o abrir do centro
é o acesso ao centro que importa

(tive sonhos, esta noite
várias coisas
entre elas, cães)

Pelo corpo é que vamos.

e o corpo era quente e recebia
e o chão já não era desconhecido
as garras do coração afagavam as criaturas
e os olhos enegrecidos viam luz nas entranhas do mundo
eram os pés e os braços que faziam magia
e quebravam os feitiços das velhas
era o torso gélido que começava a viver
era a respiração que já não era um obstáculo
e os sentidos iam a galope pelas estepes

porque o coração está quente e quer escancarar-se
num acto de adoração
porque é o corpo que se move agora
porque os olhos já não lêem e o cérebro descansa
porque é o corpo que se move e se alimenta no prazer do movimento
porque o corpo dança descalço na madeira e à volta do metal
porque não há como voltar atrás
– pelo corpo é que vamos

Pelo corpo é que vou.

porque no corpo há passagens secretas para a alma
no corpo há passagens secretas para aquilo que se esconde atrás do coração
é lá que habitamos
é lá que somos antigos e descansamos
é lá que nos movemos e criamos
é lá que oramos
é lá que nos veneramos
é lá que vemos
é lá que a vida começa
é lá que há a cascata abrupta de vida
é lá que é possível a alquimia
é lá que se atravessa a água e que as coisas se movem
é lá que o poço está sempre cheio
é lá que bebemos
é lá que nos saciamos
é lá que nascem as asas
é para lá que vão as fénix antes de regressarem
– é lá que nos encontramos

E isto é sagrado.

e manhã talvez precise de começar de novo
de joelhos
sem nada

mas é isto:
é começar sempre
e regressar sempre ao centro
soltar o corpo até não poder mais
soltar tudo o que prende
soltar tudo o que agarra e impede
beber o prazer do corpo
(e quanto ele agradece!)
e enviar-lho de volta
toma, é tudo para ti!

Pelo corpo é que vamos.


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