domingo, 26 de outubro de 2014

(sem título)


o pai tinha uns olhos que queimavam e que sofriam o desencanto das horas no relógio da vida
e as unhas do pai eram normais
os pêlos do corpo transbordavam das camisas e o pai era careca
o pai metia dó
o pai não sabia viver
ao pai ninguém disse que ele podia ser diferente e mais cheio de vida
ao pai ninguém mostrou como sujar os dedos nas tintas e como andar descalço na relva
e o pai foi fechando
coitado do pai
tem perdão o pai?
tem, sim
há perdão para o pai que não tem culpa de não ter sido amado, que não tem culpa de não lhe terem ensinado o arco-íris
coitado do pai
o menino que foi ainda chora atado aos ferros da cama velha
ainda sente a cara dorida das mãos pesadas da mãe
ainda tem medo
coitado do pai
há perdão para ele?
há, sim
porque o meu coração é leve e quente e suaviza com a luz
e vai abrindo
e talvez o coração do pai
também vá abrindo aos poucos
porque o pai ainda tem tempo, se quiser
porque o pai ainda vive
porque o pai ainda tem aquela chama nos olhos bem lá no fundo e o pai tem a força do movimento
porque o pai é firme e estável
porque o pai também é deus


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