domingo, 6 de março de 2016

(sem título)


postas de vida à beira-eu
pássaros que se agitam nos céus
e o mar longínquo que aguarda

luz perfeita
céu perfeito
e eu imperfeita e só
a um canto da alma

os búzios partidos assomam-se na mesa
a carne das folhas abana nas árvores

os dedos pousam no estofo florido da cadeira
quero sair daqui
(e quero ficar, nunca sair, morrer)

patas de pulga secam no chão
o barulho dos pássaros sobrepõe-se ao dos motores

não sei o que escrever
não sei o que fazer ao corpo
não sei parar os pensamentos pegajosos
não sei curar as emoções que perdi cá dentro
não sei alcançar o pedestal divino que abandonei
(abandonei o meu culto divino!)
e jazo mortal desesperada de caneta em punho
bato na mesa como se esmigalhasse insectos
quero ir e quero ficar

a isabel que afronta a vida
tem marcas do passado escritas nas costas
os olhos não as vêem
– só de espelho em riste
pomadas para os olhos não as alcançarão
medo da vida
viver a vida
costas ao anoitecer apodrecem os olhos que não vêem
não precisa deles a isabel que não vê

descobre os olhos e as mãos da alma
na casa abandonada na infância
pratica no tapete
esquece o estômago enfartado
vive os dedos no tapete
sente o ar à luz do sol
inala sol
exala ruído
morre para fora
vive para dentro
morre na contemplação das aves
come-lhes as cabeças estaladiças
rasga a boca com os bicos das aves
estala no chão o erro dos mamíferos
caninos errados e aguçados

as aves no céu
eu na casa

Começo.


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